sábado, 24 de janeiro de 2009

O baralho de Parikh

Alunos de ensino médio são sedentos por idéias e argumentos ultra-abstratos, mas estabelecer uma via de acesso sempre é um grande desafio. Experimentos são uma opção.

Eis o baralho de Parikh, um recurso útil para aulas sobre as aparências. Rohit Parikh, autor que escreveu sobre a lógica da vagueza, pegou uma lata de tinta branca e um baralho com 100 cartas. Ele pintou a primeira carta (C1) com a tinta. Daí acrescentou uma gota de tinta vermelha à tinta branca, e pintou a segunda carta (C2) com a mistura. Daí acrescentou outra gota de tinta vermelha, etc.

O resultado é que quem vê duas cartas consecutivas vê o que parecem ser cartas com a mesma cor, e tem bases para afirmar que, no cromatismo, C1=C2. Mas quem vê cartas a umas 20 cartas de distância vê uma ligeira diferença cromática, pois aquela de número maior parece mais rosada, de modo que tem bases para afirmar que C1diferC21, por exemplo. Mas essa mesma pessoa, olhando cartas contíguas na sequência, teria bases para afirmar que C1=C2, C2=C3, C3=C4, ... C20=C21, e inferir que C1=C21!

O baralho serve para a conclusão semibanal que as aparências enganam, e também para chegar a teses sofisticadas, como o disjuntivismo. O disjuntivismo é contrário à tese do máximo fator comum, segundo a qual se me parece que tenho duas experiências com as mesmas qualidades fenomênicas (gostos, cheiros, cores, texturas etc.), então há ou existe uma aparência ou representação que seja comum às duas experiências. Nesse caso, a partir do modo como as coisas aparecem se estabelece uma realidade das representações ou aparências. Contra isso, o disjuntivismo vai dizer que ou é o caso que se percebe a mesma qualidade fenomênica, ou é o caso que me parece que percebo a mesma qualidade fenomênica. Ou seja, como as coisas me parecem é derrotável por como as coisas são, e o baralho de Parikh é uma ferramenta de acesso a tal conclusão.

O baralho e o disjuntivismo estão descritos e explicados em Putnam, Corda Tripla, pp. 165-68.

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