- Partindo das ações individuais com determinado fim e chegando ao somatório das ações de diversos indivíduos, o qual desemboca em um fim não intencionado.
- Partindo do modo como a realidade se revela (e de certa forma se oculta) aos homens durante algum tempo em algum lugar.
A noção de serialidade é facilmente ilustrável por exemplos:
- Nenhum de nós deseja o aquecimento global e suas conseqüências, mas estes vêm como o resultado de ações e decisões que são o fruto da nossa (de cada um de nós) vontade e escolha.
- Cada um de nós deseja apenas deslocar-se até o trabalho, presentear uma criança com um brinquedo, ou lavar os cabelos, mas o resultado conjugado desses desejos é poluição urbana e industrial, a qual provoca o aquecimento global, o qual acarreta outros acontecimentos indesejados e temidos.
- Em cada época, ou em cada momento de uma cultura, compreendemos a realidade partindo de pré-compreensões que herdamos dos que nos antecederam e dos nossos próprios esforços.
De certa forma, as noções de serialidade e de destinação tratam do mesmo fenômeno, as configurações históricas, ou épocas, mas partindo de extremos opostos de uma linha.
Através da noção de serialidade nos movemos de baixo para cima, de cada uma das ações individuais, conjugando-as com outras ações humanas, e chegando ao seu resultado. É assim que explicamos as mudanças históricas, o modo como se chega ao espírito de uma época -- é assim que vemos como, a partir de determinado momento, os homens passaram a partilhar certo destino, tal como nós, que queremos apenas ir ao trabalho, ou presentear uma criança, ou lavar os cabelos, partilhamos o destino das conseqüências do aquecimento global.
Através da noção de destinação nos movemos de cima para baixo, do horizonte partilhado pelos homens de certa época, da mentalidade que os leva a agir como agem, temer o que temem, amar o que amam. Assim explicamos, através do destino partilhado, as constâncias e idiossincrasias de uma época, os comportamentos normais de certos homens, os quais seriam estranhos em outras épocas. E essa destinação tem um quê de arbitrariedade, de fenômeno errático, pois as pré-compreensões e esforços de compreensão de cada cultura poderiam ter sido diferentes, acarretando maneiras diferentes de revelar (e ocultar) a realidade.
Em suma, as ações individuais, consideradas em série, acarretam uma situação não intencionada, a qual se impõe como um destino partilhado. É assim que emerge uma nova era, época ou configuração histórica. E o horizonte de compreensão da realidade de cada cultura, isto é, o modo como a realidade destina-se à mesma, o qual é errático, explica o modo grego, terceiro-mundista, grego ou asteca de ser e de agir. Em um caso vemos como se chega a um novo destino, em outro como se vive em comum partilhando um destino.
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Este texto inspira-se nas idéias de João Carlos Brum Torres, em Transcendentalismo e Dialética. A noção de partilha de um destino que emprego é a de Ecléa Bosi, em Memória e Sociedade.

2 comentários:
Na falta de coisa melhor para dizer, digo: muito interessante!
Talvez em lugar de algo tão banal, não devesse ter dito nada. Mas, desta forma, como saberias que achei muito interessante? Se é que entendi...
[]
Obrigado, Zé !
Tô trabalhando em uma nova versão deste texto.
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