Será o capitalismo um sistema sem limite algum? Haverá algo que possa conter o avanço do capitalismo? Ou será que o capitalismo pode penetrar em toda e qualquer fresta da realidade? Essas são questões bastante difíceis, e vale a pena pensar em algumas idéias já apresentadas sobre o tema.
Muitos ecologistas vêem um limite ambiental para o desenvolvimento capitalista. De acordo com essa visão, as práticas capitalistas têm forte impacto no ambiente, e tal impacto, se continuado, nos levará ao desastre. Assim, há algo que impede o avanço capitalista: a saturação do ambiente.
No entanto, em diversas situações passadas o capitalismo conseguiu transformar o que parecia um grande obstáculo em uma nova oportunidade, de modo que não é prudente duvidar da capacidade do capitalismo de transformar o risco de destruição do planeta em oportunidade de negócios. Onde parece haver morte, doença e sofrimento puro e simples pode haver mais capitalismo, aliás como é usual.
Outro limite seria moral. Haveria frestas da realidade que não poderiam ser transformadas em oportunidades de negócios, pois tirariam do homem algo que lhe é essencial, como a liberdade ou a dignidade.
No entanto, barreiras morais não impediram o capitalismo no passado, e certamente não o impedirão no futuro. A ofensa à liberdade e à dignidade de populações inteiras sempre fez e faz parte do capitalismo, de modo que a moralidade nunca se constituiu e provavelmente nunca se constituirá em limite para os negócios.
Um terceiro e último possível limite seria a barreira da sanidade mental. Cada vez mais, mais e mais pessoas tomam psicotrópicos para dormir, para acordar, para sorrir, para ficar sérias, para se divertirem, para prestar atenção, para trepar, para controlar seus instintos etc. Talvez o sistema capitalista não consiga ir em frente por deixar as pessoas loucas.
No entanto, claramente esse não é um limite ao capitalismo vislumbrável no momento atual, pois as loucuras de hoje estão sendo tratadas com drogas cada vez melhores. Ou seja, ao invés de ser um limite ao capitalismo, a loucura já é uma grande oportunidade para grandes negócios.
Em suma, nem o ambiente, nem a moralidade, nem a sanidade mental são limites ao capitalismo. Ante tal quadro, me parece sensato aceitar que o capitalismo não tem e não terá limite algum.
Mas isso não significa aceitar que o capitalismo é eterno ou indestrutível. O problema da visão acima é buscar limites exteriores ao capitalismo, enquanto o melhor é buscar os problemas e contradições internas do capitalismo. Como já via Marx, é de dentro que se destrói o capitalismo, não de fora.
No momento atual, o ponto de maior fadiga do capitalismo é a concepção de propriedade privada. Os últimos avanços tecnológicos estropiaram essa noção.
Em eras anteriores a propriedade privada tinha papel central no capitalismo, e era ela que regulava a autoridade social. No entanto, hoje em dia o acesso à informação é mais importante do que a propriedade privada, e tal acesso não é regulado pela propriedade privada.
Além disso, as complexas práticas capitalistas de hoje, onde grandes corporações e conglomerados são donos uns dos outros torna bastante difícil dizer quem é o proprietário de alguma coisa.
Outro problema para o capitalismo é a concepção de propriedade intelectual, a grande destruidora da noção de propriedade privada no momento atual. Com a patente de genes humanos, algumas empresas pretendem ser donas de certas características da humanidade, mas é difícil até mesmo entender o que isso significa. A propriedade intelectual traz paradoxos, pois empresas pequenas mas criativas são compradas por empresas grandes para deixarem de criar ameaças, e novas pesquisas são proibidas em nome da propriedade intelectual, sem falar na tentativa de proibir maneiras de pensar que são "propriedade" de algum conglomerado. Ou seja, ao invés de incentivar a inventividade e a inovação, a visão da propriedade intelectual como propriedade privada tem o potencial de engessar o capitalismo.
Ante tal quadro, abre-se a possibilidade de lutas e práticas emancipatórias. Ante o absurdo que decorre da atual noção de propriedade, lutaremos para que as leis e práticas ligadas às novas tecnologias estejam de acordo com os interesses do soberano, isto é, os interesses populares. Não faz sentido que os seres humanos sejam propriedade de um conglomerado, e também não faz sentido que um bem fundamental para a comunicação nos dias de hoje, como o Windows e outros softwares, sejam propriedade privada.
É claro que nem tudo são flores nesse caminho. Assim como se abrem novas possibilidades emancipatórias, abrem-se novas possibilidades de dominação, talvez piores do que aquelas que conhecemos no passado. O importante é notar que as lutas por igualiberdade de hoje são diferentes das lutas do passado, e precisam ser lutadas de acordo com o quadro atual.
Este texto foi diretamente inspirado por Slavoj Zizek e Glyn Daly, Arriscar o Impossível (Martins Fontes, 2006), pp. 186-91.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário