O problema das memórias ilusórias encontrou chão em certas práticas psicoterápicas envolvendo hipnose, e foi retratado na ficção através do filme O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e do livro 1984, de George Orwell.
A história da psicologia nos fala de pioneiros como Pierre Janet e Henry Goddard. Esses pesquisadores aplicaram hipnose a certos pacientes com o objetivo de suprimir lembranças desagradáveis. No caso de Janet talvez pudéssemos dizer que a supressão de lembranças não levou a casos de falsa consciência, pois as memórias suprimidas eram menores ou laterais na vida dos pacientes. Mas, no caso de Goddard, a hipnose foi empregada para suprimir memórias centrais na vida de pacientes muito perturbados. Como resultado, podemos supor que nenhuma outra pessoa foi afetada, e os pacientes passaram a funcionar bem, podendo desempenhar papéis sociais aceitos.
Entretanto, ainda assim há um problema moral. Desde muito cedo, a filosofia viu como meta para alguém que busca a vida por completo o conhecimento de si. Conhecer a si mesmo tem a ver com a descoberta dos próprios limites e do próprio caráter. Mas também tem a ver com a memória, pois o conhecimento de si requer que o sujeito seja capaz de apresentar uma narrativa sobre si mesmo que esteja apoiada nos fatos.
Ora, se um sujeito teve memórias centrais suprimidas, ele pode até ser capaz de apresentar uma narrativa coerente sobre si mesmo (e sabemos que a memória funciona tornando umas lembranças coerentes com as outras, distorcendo-as), mas é bem provável que sua autonarrativa seja uma expressão de falsa consciência. E, havendo falsa consciência, não há conhecimento de si.
É claro que psicoterapias buscam, em primeiro lugar, ajudar as pessoas, e ajudar não é fácil. Nem sempre o auxílio dá certo, e ainda assim todo o esforço para ajudar o outro e livrá-lo do sofrimento é louvável. No entanto, terapias que buscam fazer as pessoas "funcionarem" segundo uma visão socialmente aceita do "funcionamento" de um sujeito, tal como a terapia de Goddard, são moralmente questionáveis, ainda que nenhuma outra pessoa seja afetada, e ainda que o paciente "funcione" melhor, segundo certo padrão de "funcionamento". O problema moral de tal tipo de terapia é privar o sujeito da capacidade de conhecer a si mesmo, pois deixa-lhe com uma falsa consciência.
O cinema nos deu outro exemplo de produção de falsa consciência através de uma terapia. No filme O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças os protagonistas apagam memórias na clínica Lacuna para evitar a dor do fim de um relacionamento. O caso mais significativo é o da recepcionista da Lacuna; ela apaixonou-se pelo chefe, eles tiveram um caso, ele não levou o caso adiante "por ser casado", seu chefe a convenceu a apagar as próprias memórias, e ela continuou tranqüilamente trabalhando com seu chefe. As memórias que restaram em sua mente eram coerentes, mas ela estava privada da capacidade de entender satisfatoriamente a si mesma, como fica claro seja pelo fato do seu amante não ter apagado as próprias memórias e ter podido manipulá-la, seja pela atitude que toma ao saber do ocorrido. A partir do momento em que descobre o que ocorreu, ela se dedica a dar a cada um que apagou suas memórias os objetos e documentos que os fariam lembrar do passado novamente. O que ela faz é dar a cada um a possibilidade do autoconhecimento, algo que ela considera precioso após ter notícia da privação anterior. Trata-se de uma atitude de combate ao problema moral da falsa consciência.
Talvez a obra-prima literária sobre o tema ainda seja o romance 1984, de George Orwell. A obra de Orwell retrata um mundo onde o passado é reescrito continuamente pelas forças políticas que dominam no presente, de modo a fazer com que a percepção do público mantenha-se ajustada aos desejos daqueles que dominam, ao invés de estar ajustada aos fatos puros e simples. Como já foi dito por diversos autores, a obra de Orwell é um retrato ficcional mas bastante justo a diversos aspectos da sociedade onde nós vivemos. Eis uma apresentação de um comentário da obra:
Edward S. Herman, um economista e analista dos meios de comunicação, olha criticamente para a relação entre a Oceânia de Orwell e alguns aspectos da política contemporânea dos Estados Unidos. Em "From Ingsoc and Newspeak to Amcap, Amerigood, and Marketspeak", ele argumenta que, embora 1984 tenha sido criado para dramatizar a ameaça da União Soviética, a obra contém os germes de uma crítica poderosa à prática dos Estados Unidos. Ele argumenta que a propaganda é, de fato, um meio de controle social mais importante nos Estados Unidos do que o é em uma sociedade fechada como a antiga União Soviética. Nos Estados Unidos, a elite permite controvérsia, mas apenas dentro de limites estritos. A noção dos Estados Unidos cometendo agressão, por exemplo, está "além do limite do pensamento compreensível". Liberdade geralmente significa "liberdade de mercados" no domínio estadunidense de Mercadolíngua, ao invés de liberdade política. Assim como os indivíduos tornam-se "não-pessoas" no Ingsoc, populações inteiras desaparecem das páginas da grande mídia em tempos de guerra; ao contrário das baixas estadunidenses, elas não tem custo político, e assim a matança em larga escala delas é permitida. Nessa e em outras maneiras, Amcap é um meio ainda mais efetivo de controle social do que o Ingsoc. (Abbott Gleason e Martha Nussbaum, introdução a On Nineteen Eighty-Four: Orwell and Our Future, p. 6 -- ver na LibraryThing.)Segundo essa visão da obra de Orwell, 1984 retrata alguns dos mecanismos desenvolvidos no século 20 para a produção social de falsa consciência. Tais mecanismos produzem memórias ilusórias, daí resulta falsa consciência, e da falsa consciência vem a privação do conhecimento de si. Além de controle político, um problema ao menos tão grave quanto o problema moral da privação dos elementos mínimos dos quais um sujeito precisa dispor para ter conhecimento de si.
Boa parte deste texto foi inspirada em "Falsa Consciência", capítulo 18 de Múltipla Personalidade e as Ciências da Memória (José Olympio, 2000), de Ian Hacking.

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