Fazer filosofia pode ser um bocado de coisas diferentes. Deixando de lado várias possibilidades e alternativas, fazer filosofia pode ser apresentar uma teoria sobre o que há (metafísica), uma teoria sobre como sabemos o que quer que seja (epistemologia), ou uma teoria sobre nossas representações das espécies e gêneros de coisas (teoria dos conceitos). E, preferencialmente, fazer filosofia é fazer, ao mesmo tempo, todas essas coisas.
Levando em conta essa proposta abrangente de filosofia, que teoria filosófica poderíamos apresentar sobre o tempo? Como interligar, em uma única teoria filosófica, uma tese sobre o que o tempo é, uma tese sobre como sabemos algo sobre o tempo e uma tese sobre nossa concepção do tempo?
Vamos começar pela concepção do tempo. Um pensamento sobre o passado e um pensamento sobre o presente envolvem, explícita ou implicitamente, conceitos distintos, a saber, o conceito de passado e o conceito de presente. Mas ambos pensamentos podem ter uma propriedade em comum. Por exemplo, o pensamento que ontem choveu tem, em comum com o pensamento que hoje está chovendo, a propriedade ou predicado "... está chovendo".
Isso parece pouco, mas não é. Isso nos permite uma relação entre a concepção do tempo e o tempo ele mesmo. Pois, o que ocorre no nosso caso é que o pensamento que ontem choveu é verdadeiro se, e somente se, o dia de ontem teve a mesma propriedade que seria requerida para termos, agora, um pensamento verdadeiro que agora está chovendo.
Ou seja, com a pequena manobra acima conseguimos nossa primeira inter-relação. Relacionamos a concepção do tempo ao tempo ele mesmo. A cola que une uma e outra coisa é a noção de verdade, e também a noção de propriedade. Estabelecemos um quadro onde diferentes tempos podem partilhar uma propriedade, em seguida especificamos as condições nas quais é verdade que tais tempos partilham a propriedade, e daí passamos à concepção de um e de outro dia como possuindo tal propriedade.
Agora vamos amarrar o tempo e a concepção do tempo ao terceiro vértice, o conhecimento do tempo.
Digamos que ontem estava chovendo, e eu pensei, ontem, o pensamento expressável como "agora está chovendo". O dia passou, e agora já não é ontem, é hoje. Como meu pensamento de ontem, agora armazenado na minha memória, pode ser verdadeiro, se agora já não é ontem?
Muito simples: basta que eu ligue a propriedade que verdadeiramente atribui ao dia de ontem no dia de ontem, a propriedade de estar chovendo, a ontem, não a agora. Bem banal, não?
Banal, mas poderoso, pois, se ontem adotei não por acaso, seja por percepção, seja por testemunho, seja por inferência, a opinião que estava chovendo, expressável naquele momento como "agora está chovendo", e estava chovendo, então minha opinião é verdadeira e motivada. E, se tal opinião verdadeira e motivada continua valendo, apesar de agora já não ser ontem, então tenho, agora, um conhecimento sobre o dia de ontem.
Resumindo, propus uma conexão geral entre o conceito de tempo, o conhecimento do tempo e o próprio tempo. Amarrei as coisas de modo a fazer duas coisas. Primeiro, que a posse do conceito de tempo resultasse, em determinado caso, no conhecimento presente de algo passado; segundo, que o conhecimento presente de algo passado, e mediado por uma representação conceitual, só fosse correto porque o mundo é como é, e não de outro modo. Assim apresentei uma visão filosófica abrangente sobre o tempo, incluindo teoria dos conceitos, epistemologia e metafísica.
As idéias acima foram inspiradas em Christopher Peacocke, "Theories of Concepts: A Wider Task", em João Branquinho (editor), The Foundations of Cognitive Science, pp. 157-81 (Oxford: Clarendon Press, 2001).
domingo, 10 de junho de 2007
O tempo -- e algumas inter-relações filosóficas
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